Arquivo mensal: março 2011

Arquivo: um lugar de memória


Pessoal, estou divulgando trecho da entrevista “LABHOI, um arquivo que pensa”, publicado em 23/11/2009.
O Laboratório de História Oral e Imagem (LABHOI) do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF) foi criado em 1982. Sua história tem estreita relação com o aprimoramento (melhoramento) do curso de graduação e com a consolidação do programa de pós-graduação. A iniciativa coube às professoras Ismênia Martins e Eulália Lobo, que, à época, realizavam estudo sobre o movimento operário do Rio de Janeiro, com entrevistas e pesquisa de imagens.
Naquele tempo, há quase 30 anos, o uso de fontes não escritas na pesquisa histórica ainda era uma novidade no Brasil, o que tornou o laboratório, nas palavras da historiadora Ana Maria Mauad, um “precursor” da renovação que iria marcar a historiografia brasileira na década de 1980 e seguinte.

Segundo ela, a professora Ismênia Martins fez uma ponte entre o Brasil e a França, onde era intenso o debate sobre a incorporação (uso) de fontes orais e iconográficas (imagens) à pesquisa histórica, sobretudo graças ao historiador Michel Volvelle.

Os projetos estão quase sempre vinculados à memória da cidade de Niterói, onde está situada a UFF. Dentre eles, destacam-se os que buscaram registrar a memória de imigrantes italianos, portugueses e espanhóis, além dos que trataram de acontecimentos marcantes na memória urbana da cidade, a exemplo do quebra-quebra das barcas, de 1959; do incêndio do circo de Niterói, ocorrido em 1961; e do uso do estádio Caio Martins como presídio político logo após o golpe militar de 1964. Cada uma dessas comunidades e eventos foi tema de um curso diferente.

“O LABHOI é um arquivo que pensa”, explica a historiadora, a propósito do laboratório ser ao mesmo tempo um arquivo e um produtor de fontes orais e de imagens.

Todos os projetos de pesquisa, sejam dos professores ou dos alunos por eles orientados, geram fontes orais e imagens que são guardadas no arquivo, obedecendo a protocolos característicos de arquivos de fontes orais – registro do projeto de pesquisa, dos procedimentos adotados na coleta das informações, dos integrantes da equipe, dos produtos gerados, além da elaboração de transcrições e sumários. Enfim, todas as informações úteis a consultas posteriores ao material são produzidas e guardadas.

O acervo do laboratório está organizado em quatro linhas de pesquisa: Memória, Escravidão e Cidadania; África e Mundo Atlântico; Memória Política e Mídias; e Memória, Arte e Política. Entre essas linhas de pesquisa circulam os historiadores que formam o núcleo do LABHOI: Ana Maria Mauad, Hebe Mattos, Paulo Knauss e Mariza Soares.

 

O endereço do LABHOI na internet é http://www.historia.uff.br/labhoi/.

Fonte: Globo Universidade

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O que pensa o historiador? (1)


Bom, pessoal, estou postando uma pequena parte de uma entrevista publicada na página Globo Universidade, em 28/01/2009, como historiador britânico Peter Burke. O tema da conversa foi: “Estudar o passado ajuda a desenvolver uma sensibilidade à diversidade humana”.

Em sua passagem pelo Rio de Janeiro, onde esteve para participar do Seminário Comunicação e História, realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro  com o apoio do Globo Universidade, Burke concedeu entrevista exclusiva ao site, na qual discorreu sobre sua obra, sobre os caminhos que a escrita da História vem tomando na última década, além das novas possibilidades de estudo na área. Para ele, a História tem papel fundamental para a compreensão do mundo contemporâneo.

 

Globo Universidade – Você falou sobre a importância da história para entendermos o presente. Você poderia desenvolver um pouco mais essa ideia?

PB – Ela nos ajuda a entender algumas coisas e a começarmos a entender outras. É por isso que é importante reescrever a história a cada geração. Cada geração, vivendo os problemas do presente, começa a interrogar o passado sobre essas questões. Mas uma coisa é usar o presente para formular as perguntas, no entanto, é preciso deixar o passado dar suas próprias respostas.

GU – Sempre há uma linha tênue para que o historiador não encontre apenas o que originalmente saiu para buscar…
PB –
Exatamente, há sempre o risco do anacronismo. Embora eu acredite que haja — e isso pode ser uma heresia — um papel instrutivo para o anacronismo, porque é preciso fazer comparações com o presente para que possamos entender o passado. É preciso ficar lembrando as pessoas de que o passado não é como o presente, para que elas entendam por que aquelas pessoas agiam da forma que agiam, e às vezes fazer um paralelo com algum movimento moderno. Mas isso é apenas um estratagema de tornar as coisas mais fáceis de entender, porque depois de uma geração os anacronismos saem de moda. Quando eu era estudante, as pessoas gostavam de fazer comparações entre os calvinistas e os comunistas porque eram grupos bem organizados com uma missão bem clara no mundo. É claro que hoje não adianta fazer isso com os estudantes porque ninguém sabe mais onde estão os comunistas. É preciso achar um novo paralelo e, aceito isso, você (como historiador) entende que não está escrevendo para um futuro distante, mas sim tentando explicar as questões às pessoas de sua própria sociedade, e vai pagar o preço de ficar obsoleto, mas, de qualquer maneira, (escrever a história) é um empreendimento coletivo, levado adiante através das gerações. É um grande erro achar que você está escrevendo algo para ser lido para sempre.

GU – A que ponto você acha que se pode traçar uma linha hoje entre escrita histórica e escrita ficcional, e essa linha repousa sobre idéias do que é realidade ou não?

PB – É difícil traçar uma linha, não tanto porque historiadores estejam esquecendo de verificar suas afirmativas, mas porque os romancistas históricos não mais estão interessados em fazer pesquisa histórica. Então, a diferença é que quando não se pode encontrar prova de algo, os historiadores ou se calam ou dizem “agora tenho de especular”, enquanto o romancista se permite seguir adiante porque, afinal de contas, ele não reivindica estar escrevendo a história. Mas mesmo assim aprendo muita coisa sobre o passado lendo alguns romances históricos.

GU – Como a internet está afetando a escrita da história?
PB –
Mais obviamente quando se trata de checar pequenas informações que são relativamente bem conhecidas. Você está escrevendo um capítulo e não se lembra quando Charles Dickens nasceu. Em vez de levantar e pegar um livro, corto 50% do tempo usando o Google, e esse tipo de coisa é relativamente confiável. A Wikipédia é um empreendimento muito interessante porque ela não somente está colocando toda a informação na internet, mas é também um empreendimento coletivo de escrita de enciclopédias, e acho que isso é algo único na história das enciclopédias, e que qualquer um que queira pode participar. É claro que isso gera problemas, porque há colaboradores que não sabem tanto de história, ou usam as fontes de modo acrítico, ou têm preconceitos fortes — coisas que também acontecem nos livros — mas eles estão se organizando para cuidar desses problemas: abre-se um verbete e há avisos sobre a necessidade de se rever alguns pontos do artigo, ou de se fornecer referências para uma afirmação. Eles estão se tornando mais acadêmicos. De qualquer modo, a internet hoje é útil para checar informações, pois ainda é ínfimo o porcentual de fontes históricas disponíveis online. Esse é um trabalho que vai levar tempo. Eu costumava trabalhar com os arquivos italianos. Em apenas uma cidade da Itália, Veneza, há quilômetros de artigos sobre o século XVII. Quem tem tempo e dinheiro para pôr isso na internet? E quanto tempo vai levar? Por outro lado, há iniciativas muito interessantes. Acabei de escrever com minha mulher (a historiadora brasileira Maria Lúcia Garcia Palhares-Burke) um livro sobre Gilberto Freyre, e encontramos boa parte da correspondência dele num site organizado por seu neto.

Ele estuda vários temas relacionados aos aspectos sociais e culturais da Idade Moderna. Ele é professor emérito da Universidade de Cambridge, na Inglaterra e tem uma ligação especial com o Brasil: além de ser casado com a historiadora brasileira Maria Lucia Garcia Palhares-Burke, sua parceira também na academia, ele passou um ano em São Paulo (1994-95) como professor visitante do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP).

 

 

Vamos pensar (3)


Seria possível fazer história sem memória?

Bom, pessoal!

Seguindo adiante nas nossas discussões em sala de aula, vamos pensar um instantinho sobre a relação entre História e Memória?! Seria possível escrever História se não pudessemos guardar aquilo que vivemos em nossa memória?

Para responder a esta pergunta, sugiro que assistam ao trecho do filme ” Como se fosse a primeira vez”.  Bom filme!!!